É mesmo verdade. PIB da Irlanda cresceu 26,3% em 2015

Julho 12, 2016
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A deslocalização de multinacionais para a Irlanda fez o PIB do país explodir. Há efeitos positivos, mas não só.

Não foi na China, nem na Índia, nem num qualquer pequeno país com uma economia muito volátil. Foi mesmo um país da Zona Euro que conseguiu um crescimento nunca visto no seu produto interno bruto (PIB) no ano passado.

 

O PIB da Irlanda registou uma taxa de crescimento de 26,3% no ano passado, de acordo com os valores revistos que foram anunciados esta terça-feira, 12 de Julho, pelo instituto de estatística do país que foi alvo de um resgate em 2010.

 

A anterior estimativa já apontava para um crescimento assinalável (7,8%), mas o novo valor deixou os economistas "sem palavras", como salienta a Bloomberg.

 

A economia irlandesa está em forte recuperação dos vários anos de recessão que se seguiram ao resgate, mas esta explosão no PIB, como não poderia deixar de ser, tem a ver com factores extraordinários e com a especificidade da economia irlandesa.

 

A revisão do valor do PIB está relacionada com a contabilização de activos das multinacionais que têm sede no país. A baixa taxa de impostos que a Irlanda cobra às empresas (IRC de 12,5%) tem atraído cada vez mais companhias para o país, o que provocou uma forte subida no valor dos activos que são contabilizados no PIB.

 

Muitas das empresas alteram a sede para Dublin depois de comprarem pequenas empresas neste país. Foi o que fizeram empresas como a Allergan, Tyco, Medtronic e muitas outras.  

 

"O que aconteceu aqui é que um balanço inteiro de uma empresa que deslocaliza a sede para a Irlanda passa a estar incluído no nosso stock de capital e posição de investimento internacional", explica Michael Connolly, do instituto de estatística do país, citado pelo Guardian.

 

Dados de 2014 citados pela Bloomberg mostram que empresas com activos avaliados em 523 mil milhões de euros alteraram a sua sede para a Irlanda nesse ano, passando a pagar impostos neste país. Desde 2008 o produto nacional bruto (PNB) da Irlanda aumentou 7 mil milhões de euros à custa destes processos de relocalização de empresas para o país.

 

"Temos uma economia muito pequena, e se tivermos um grande aumento de activos, é isto que acontece", disse Connolly para justificar o crescimento de 26,3% no PIB, ao mesmo tempo que garante que os números são "fiáveis".

 

Também a dar um forte impulso à economia está o facto de na Irlanda estarem sedeadas muitas companhias de leasing de aviões e o ano passado ter sido muito forte neste sector.

 

Em resultado, as exportações mais do que duplicaram. Contudo, outros indicadores que não são afectados por estes movimentos mostram uma evolução bem mais contida da economia irlandesa. O consumo das famílias cresceu 4,5%. 

 

Se à partida ter a economia a registar taxas de crescimento de 26% só pode ser positivo, o ministro das Finanças da Irlanda, Michael Noonan (na foto) já veio lançar alguns alertas. É que o emprego não acompanha o crescimento do PIB e o país tem que efectuar maiores contribuições para o orçamento comunitário, que é feito com base na dimensão do PIB.

 

Por outro lado, para medir o real estado da economia irlandesa, o PIB tenderá a ser um indicador cada vez menos utilizado. "A Irlanda está a crescer a uma taxa razoável", em redor de 5,5%, "mas não dramática", como 26,3%. "Há tantas transacções a acontecer que ninguém compreende", afirmou à Bloomberg o economista Jim Power, confessando que não sabe ainda o que irá dizer numa palestra sobre a economia irlandesa agendada para esta semana em Londres. Certo é que não dirá que a economia cresceu 26% em 2015, assegurou.

 

Entre os efeitos positivos desta revisão do PIB está o facto de a Irlanda apresentar agora rácios de endividamento e défice público bem mais reduzidos. A dívida pública é agora inferior a 80% do PIB.

 

Também esta terça-feira foram revelados os dados do primeiro trimestre de 2016 e a evolução foi contrária, com o PIB a recuar 2,1%. Uma variação que os economistas desvalorizam dada a evolução anómala registada em 2015. 

 



by Jornal de Negócios